1/18/2007

O POLITICAMENTE CORRECTO É UMA COBRA VENENOSA



Há uns anos, quando fiz o meu estágio no sistema de ensino, o meu grupo foi constituído por três mulheres sobre as quais nada havia a dizer (uma das quais era eu) mais uma que ostentava na testa o rótulo "Coitadinha de mim, sou angolana e negra e os meus antepassados sofreram muito por vossa causa, redimam-se!". Claro que este rótulo não se notou logo, começou por vir em letras pequenas.
A princípio tudo parecia normal, estávamo-nos todas bem a cagar para o sítio onde cada uma tinha nascido ou quem as famílias eram (nem éramos particularmente amigas) e passámos à acção, ou seja, trabalhar q.b. para fazer aquilo na boa e com a melhor nota possível.

Quando começaram as aulas, constatámos que a nossa colega angolana falava e escrevia inglês mais ou menos como um sapateiro toca violino. Era um problema. E tratámos de o resolver.

Nas reuniões de avaliação desvalorizávamos os erros da colega, atacando sempre com a boa vontade e a capacidade de trabalho que demonstrava. Tudo tretas, como se sabe, até porque se fossem os nossos filhos que ali estivessem a aprender o inglês dela mudávamos os gajos de escola, mas um paleio roto que costuma ser suficiente para acalmar os ânimos nestas situações. Qual não foi o nosso espanto quando verificámos que ela aceitava os nossos elogios como verdadeiros e ainda retorquia sacando dos seus caderninhos de apontamentos para nos apontar todos os pequenos erros incluíndo ter aberto um estore num dia de sol e ter ficado a cabecinha dum menino a esturrar durante dez minutos. Mas não se ficou por aqui, upa upa! Com o tempo, foi-se tornando uma criatura embirrenta e insuportável. Não comparecia nos trabalhos de grupo mas fazia questão que o nome dela figurasse, dava os planos de aula a fazer a uma de nós com a desculpa de ter a filha doente, exigia boleias de e para a escola com a agravante de qualquer uma de nós ter que fazer um desvio para a ir buscar a casa e nem sequer se dava ao luxo de descer e esperar cá em baixo. Era necessário estacionar o carro, ir lá a cima tocar à campainha e esperar que ela acabasse de se arranjar e, muitas vezes, que a filha acordasse porque não se pode tirar uma criança da cama à força. E nós esperávamos e grande parte das vezes chegávamos atrasadas à nossa aula por causa dela.

Pavoneava-se por todo o lado com a bíblia debaixo do braço (pertencia a uma seita qualquer que nunca chegámos a identificar) e fazia citações bíblicas sempre que pretendia atirar uma indirecta sobre a nossa conduta moral ou a nossa vida privada.

E para agravar tudo, começou a queixar-se às orientadoras de estar a ser desprezada pelo grupo (como é evidente, nas nossas costas), e o resultado era nas reuniões de avaliação nós levarmos na cabeça até mais não por um erro de chacha e ela levar uma festinha no lombo depois de ter dado um pontapé de todo o tamanho na gramática, com o incentivo "Coragem! Tu consegues!", E nós, claro, com cara de parvas a tentar perceber o que raio estaria ali a acontecer.

Até que um dia nós nos fartámos. Eu fui a primeira a dar com os pés, olha eu! Chamei-a à parte e expliquei-lhe que "Olha, querida, ou te pões fina ou estás à pega comigo que estou fartinha de levar contigo, capice? E as boleias acabaram-se, apanha o autocarro que é bom." As duas restantes seguiram-me de imediato e, certinho direitinho, no dia seguinte sussurrava-se na escola que "as três meninas brancas do grupo de estágio de português e inglês vão ter uma queixa no SOS Racismo". Claro que não aconteceu nada, mas na verdade eu é que pensei na altura que seria oportuno queixar-me ao SOS Racismo, seja lá isso o que for.

Claro que isto não aconteceu por ela ser negra ou castanha ou preta ou o raio que a parta. Aconteceu porque a gaja era simplesmente parva. Só que quando uma parva pertence a uma minoria a que se tenha estabelecido atribuir o estatuto de espécie protegida torna-se tudo muito mais complicado.

2 comentários:

Barão d'Holbster disse...

Eu estou à vontade pa falar sobre isto, porque felizmente na minha vida sempre houve muita cor....
Mas ca ganda malha.
Gostei muito deste texto porque já senti exactamente o mesmo (mas menos intensamente). Muitas vezes o que acontece é uma auto-exclusão das minorias que depois usam esse argumento para desculparem a sua desgraça (que muitas vezes é equivalente a incompetência e falta de motivação). O que seria da minha vida sem estes textos proféticos made by Didas?

Anónimo disse...

Gosto de chamar os bois pelos nomes e portanto, digo que nunca compreendi muito bem esse complexo que existiu, e ainda existe no que diz respeito às relações entre Portugal e a República Popular de Angola. Isso seria assunto que daria pano para mangas.
Quanto aos Angolanos em geral, parece que é comum essa coisa do "racismo". Quanto se tenta fazer algum deles chegar à razão,somos imediatamente acusados de racismo. Se fazem barulho de noite e não deixam dormir ninguém, os "racistas" somos nós! Experimentem viver em propriedade horizontal com apartamentos habitados por Angolanos e perceberão do que estou a falar. Claro que todos os povos têm direito a uma vida melhor e a educar os filhos em paz, mas, quando se emigra, manda o bom-senso que se respeitem os hábitos e cultura, bem como as leis do país anfitrião!Essa coisa de que temos que "levar com eles" porque fomos os colonizadores e eles os pobres povos em luta pela auto-determinação, para mim - não obrigado.

Cumprimentos.