2/07/2008

MOMENTOS

E então a mulher gorda, com nódoas na camisola XXL sob a qual pendia uma barriga branca com um umbigo cratera sobre umas calças de fato de treino, levantou-se e vociferou, depois de tirar um macaco do nariz e enquanto mastigava o resto do "bollicao" do puto com a boca toda aberta:


- Este país é o terceiro mundo! É o que é!


As pessoas em volta olharam, e pensaram em uníssono:


-Xi! É mesmo!...

2/05/2008

A MINHA PRIMEIRA EXPERIÊNCIA NA OUTRA METADE DE PORTUGAL


Eu tinha uns dez anos quando fomos convidados para um casamento na aldeia do meu avô paterno. Já não me lembro do nome nem ao certo onde fica, mas sei que era algures no Ribatejo. Uma aldeia muito pequena e muito pobre. Pobre mesmo, como eu, na minha curta experiência, nunca tinha visto. Tão pobre que só havia um vestido de noiva, que rodava por todas. A rebentar pelas costuras numas, a sobrar pano noutras. A cerimónia foi dum atavismo surreal, numa capela minúscula, e depois serviram-nos um almoço debaixo dum telheiro com mesas e bancos corridos, que eu achei "uma porcaria", mas comi e não disse nada porque já sabia que era má-educação dar a entender.

Eu já era "uma mulherzinha". Pelo menos era o que todos diziam. Por isso compreendi depressa qual o comportamento que de mim se esperava. Compreendi também que a generosidade daquelas pessoas pobres tinha que ser respeitada, e foi o que fiz.


Só uma dúvida intrigante ficou a martelar na minha cabeça: Porque diabo aquela gente pronunciava todas as palavras que tinham "v", mesmo com "v" e não com "b"? Porque eram tão presunçosos se, afinal, viviam vidas tão básicas?


Isto porque, para mim, vinda do norte, o "v" era uma letra que só se "carregava" em discursos oficiais ou em ocasiões especiais, como no exame da quarta. De resto, falava-se com "b", sob pena de se parecer um peneirento insuportável.


Depois explicaram-me que no sul era mesmo assim, que toda a gente dizia o "v" nas palavras que levavam o "v" escrito, e que isso para eles não era uma mania. E eu, de olhos muito abertos: - "A sério???!!!"

2/03/2008


Olá queridos clientes! Ora então cá estou eu para vos explicar com todos os pormenores as recentes alterações no governo, incluindo manobras de bastidores totalmente inventadas por mim e outros segredos ainda não revelados porque também não são verdade.
Para começar, vamos desfazer o primeiro equívoco: a palavra remodelação. Nos telejornais, assim que se soube que dois ministros tinham sido enxotados, desataram a dizer que tinha havido uma “remodelação de ministros”. Isso era se tivessem feito, por exemplo, uma lipo-aspiração abdominal ao ministro da saúde. Que eu saiba não fizeram nem ele pediu, até porque não confia nos médicos e faz muito bem. O que houve foi uma remodelação no governo, isso sim. Até eu que só fiz o nono ano sei isto!
Agora que já fizemos os preliminares, continuamos então para o que interessa.

Em primeiros, os verdadeiros motivos da substituição na saúde:
O ministro da saúde aguentou-se a tudo quanto era romarias e histerismos do pessoal da feijoada, a ataques políticos, ao prós e contras com os saloios de Anadia aos berros no segundo-balcão… Por isso, perguntam vocês, porque é que de repente, do nada, o mandaram embora? Ora, está-se mesmo a ver que foi por causa daquela gravação da gaja do INEM a discutir pontos de crochet durante meia hora ao telefone com o bombeiro atrasado, enquanto um cota, na aldeia de Não Sei Quantos, batia a bota. Ou seja, o ministro da saúde foi com os pitos por haver, em Favaios, um anormal que até para f… os tomates lhe estorvam. E o povo, que tem que se fazer à vida todos os dias sem medos senão bem se lixa, fica muito impressionado com coisas desse tipo de coisas. Moral da história: Há que escolher muito bem o staff, porque até a gaja da limpeza nos pode fazer “dançar”. Só que isto, num ministério com centenas de ramificações e dependências por tudo quanto é sítio, é difícil. Azar!
Agora o que vocês também não sabem: os verdadeiros motivos da escolha da Drª Ana Jorge para avançada no terreno. Pois está claro que esta malta não brinca em serviço, aquilo é pensado até ao pormenor. Já viram bem a senhora? Com aquele penteado em forma de capacetezinho mal amanhado num cabeleireiro de subúrbio, aqueles óculos de massa enormes numa cara pequenina e aquela vozinha de quem nem se aguenta a dar um traque, o que é que ela vos faz lembrar? Vá, façam um esforço! Não chegam lá? Então? Imaginem-na de bata branca num centro de saúde, a chamar a D. Cesaltina no intercomunicador como quem vai desfalecer logo a seguir com o esforço, a receitar ultra-levures para a tripa dos velhinhos e eles a comentar uns com os outros – “A Drª Ana é que é uma santa, valha-a Deus!” – Então, não é tal e qual? Era mesmo isto que fazia falta para acalmar os ânimos! Pimba! Mas não se iludam, que a gaja vai já começar a comer as papas em cima da cabeça do pessoal e vai ser bem-feito! Para já, já escolheu para secretário duma cena qualquer o tipo que foi o autor da lei da procriação medicamente assistida. Fónix! Se isto não é prepotência, o que é?

Já no Ministério da Cultura, as coisas não são tão óbvias, e até eu que sou uma rapariga esperta, tive que andar dias e dias a dar cabo da moleirinha até conseguir chegar a uma conclusão. Mas pelos clientes faço tudo, carago! Cá vai:
Ninguém esperava que num ministério sossegado como o da cultura acontecesse qualquer coisa, aliás, não costuma acontecer mesmo nada. Aquilo no princípio vai-se à cartilha, que já vigora quase desde o tempo do João de Deus e vai-se picando: “Subsídio para mais 500000 km de fita do Manoel de Oliveira” – feito. “Aparecer numa abertura duma exposição qualquer” – feito. “Ir ao cabeleireiro” – feito. Só que vendo bem, a Drª Isabel quis ser espirituosa e deu umas voltas à cartilha. Em vez de ficar sossegada no seu canto, não é que a mulher começou a inventar? Ok, o subsídio para o Manoel de Oliveira saiu, para aquele filme com um travesti a fazer de moradora de Cuba há muito tempo, mas isso, também, se não saísse, era considerado heresia e dava direito a fogueira no Terreiro do Paço. Agora cá só entre mim e vocês, acham mesmo que os tachistas que ela andou a pôr no lugar, tipo directora do MNAA, director do Teatro Nacional e chulos do bailado, não moviam todas as influências e mais algumas para lhe fazerem a folha? Não se iludam, isto é uma aldeia, seja em Lisboa ou em Gulpilhares de Baixo!
Mas do que eu gostei mesmo foi de ver o substituto! Upa Upa! Um advogado especializado em direito comercial na cultura! É o ideal para não se meter em alhadas! Está feito! Esse não chateia mais! E então a maneira como foi apresentado pela comunicação social diz tudo: Advogado dos Gato Fedorento! O cromo Berardo, seu amigo (valha-nos nossa senhora!) considera-o “um médico amigo que dá consultas à borla”.

Isto é uma comédia!

2/01/2008

E A PRÓXIMA MANCHETE VAI SER!... SÓCRATES LIMPAVA MAL O RABO QUANDO TINHA DOIS ANOS!!!

O 24Horas dos cagalhões afectados, ou seja, o Público, acabou de descobrir (graças a um profundo trabalho de investigação que consistiu numa entrevista a um gajo que acabou de cumprir pena por corrupção), que José Sócrates é o único engenheiro deste país que assina ou já assinou projectos de "bibendas" indizíveis que vão embelezando as nossas bem cuidadas zonas rurais, na realidade desenhados por habilidosos com a 4ª classe, que riscam aquilo numas folhas de sebenta com lápis Viarco n.º 1 por afiar.

Caramba, o homem deve ter apanhado, no mínimo, uma tendinite a fazer tanta assinatura. Eu cá ia apostar que uns 99% dos engenheiros civis faz isso e a comunicação social faz de conta que não se passa nada nem ninguém se queixa. Mas afinal foi o Sócrates que os assinou a todos. Assim já se explica.


Acho que isto já conta para fazer do actual primeiro-ministro o "Campeão das Manchetes sem Ponta por Onde se lhes Pegue". Se eu fosse a ele, inscrevia-me no guiness a ver se me davam algum.




E para quem achava que eu hoje ia falar no regicídio, é assim: Não me apeteceu.

1/31/2008

SÃO GONÇALINHO ESTÁ CONNOSCO!

Estamos a subir no ranking de realizadores de cinema. O nosso filme documental sobre a festa religiosa (?) de S. Gonçalinho foi considerado um video sensual e figura aqui, graças a critérios de escolha que desconhecemos completamente, rodeado de temas tão intensos como lesbianas, videos calientes, latinas sensuales, tetonas, voyeur, lenceria, chicas, jovencitas e Paris Hilton, onde está perfeitamente bem enquadrado apesar de considerarmos o nosso mais excitante.
Por coisas assim é que sempre apostámos fortemente na beatagem. Mais um bocadinho e estamos a ganhar um Óscar, já não falta tudo!
Obrigada São Gonçalinho!

1/30/2008

MOMENTOS ENCARALHANTES

- E como é que vai efectuar o pagamento?

- Bem... Eu tenho algum dinheiro de parte... mas não tenho todo. Tive alguns contratempos... Vou ter que recorrer à banca para a parte que me falta.

- Eu referia-me aos cinco euros da certidão...



1/29/2008

UMA DAS MINHAS MAIORES PANCAS - TENHO OUTRAS


A relação mais problemática que mantenho na minha vida é com a comida. Amo-a e odeio-a. Dedico-me a ela como se fosse uma religião e logo a seguir renego-a como ao próprio diabo.

Neste momento dedico-me à tarefa anual de perder os kilos que ganhei de brinde no natal. E nestas alturas costumo sonhar recorrentemente com o tema.

Esta noite, rebolei obesa por uma colina abaixo. Mas mesmo a rebolar, sem que qualquer extremidade do meu corpo interferisse com a fluidez do percurso. Pelo caminho, vi pessoas a elaborar novelos de tiras de bacon fritas a pingar gordura, pessoas a estender queijo derretido como se fosse roupa a secar e outras actividades de que não me recordo mas que incluiam produtos alimentares hiper-calóricos. Mas eu só estava preocupada por ter engordado tanto que rebolava sem conseguir parar.

Quando acordei fartei-me de rir... e fui comer o meu yogurte magro e o meu chá verde.

1/28/2008

CORRUP... QUÊ?!


Não sei o que há de comum entre mim e o bastonário da ordem dos advogados, porque à partida parece que nada. Mas que temos muito em comum, isso temos. Só pode.

Porque neste país inteiro, dez milhões de jericos mais coisa menos coisa, só eu é que já tinha ouvido falar nas javardices que ele fez o favor de espalhar aos quatro ventos. E mais, só eu é que percebi do que se tratava. De resto, parece que foi uma surpresa para toda a gente, incluindo quem vive habitualmente no meio da estrumeira. Só se ouve por aí: -"Não, não sei de nada!", "Tem que se averiguar!", "Devia-se abrir um inquérito!", "Ele tem que dizer de quem se trata porque assim ninguém sabe!"

Se houver por aí algum cliente que também já sabia de tudo, é favor chegar-se à frente. Se formos em número suficiente já podemos constituir uma associação de fenómenos.

1/25/2008

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Só queria ter uma nota de 500 por cada gajo que me aparece à frente a lamentar-se que não percebe nada, que não sabe nada, que “a senhora faça lá o favor, preencha-me os papéis que eu não sei! Eu sou um ignorante, não sei nada disso! Vá lá!”................................E depois vai votar cheio de certezas.

1/23/2008

O MUNDO LABORAL: DUAS LIÇÕES

LIÇÃO 1: DECIDIDAMENTE, VOU DEIXAR DE TRABALHAR ATÉ TARDE

- Boa tarde! É de casa do Sr ******* *****?
E uma voz feminina do outro lado:
- É. O que é que “bocê” quer com o meu marido?
- Eu estou a falar d* ****** *********.
- A esta hora?! Sim sim, acredito mesmo! O que é que “bocê” quer com o meu marido?
- Olhe, é só para avisar o Sr ******* ***** que pode vir levantar o documento que cá pediu. Dê-lhe o recado se faz favor.
- Ah é?... Ah… a senhora desculpe aquelas coisas que eu disse… mas está a ver… a esta hora!...
- Com certeza. Obrigada. Boa tarde.
- Boa tarde… e desculpe!...


LIÇÃO 2: GOD, I’M HOT!

Hoje, quando cheguei de manhã, já havia vários utentes na sala. Pousei as coisas, sentei-me e liguei o computador. Entretanto ouvi uma senhora a comentar sussurradamente com a que estava ao lado:
- Para que é que ela está para ali a olhar e não faz nada?
E a outra, com ar entendido na matéria e também em voz muito baixa.
- Está a aquecer o computador. Sabe, é preciso aquecê-lo primeiro. É naquela coisinha que ela está a mexer (referia-se ao rato). Está a ver?
E a outra, impressionada e pelos vistos convencida:
-Ah é? Ah! Então está bem!

1/22/2008

TAMBÉM PODE SER MAU-OLHADO, QUE ELE HÁ POR AÍ MUITA INVEJA!

Não sei se fui só eu a reparar nisto, mas o Luís Filipe Menezes parece andar adoentado. Desde que chegou a boss no PSD e está a disputar o campeonato com o Sócrates, o homem, quando fala, parece que acabou de levar um enxerto de porrada, ou então que tomou uma caixa de xanax fora do prazo. Já partilhámos com algumas pessoas esta nossa preocupação e há más-línguas que acham que aquilo é de propósito para simular um ar cool, criar um style assim tipo George Clooney mas sem a substância, não sei se estão a captar. Também há quem ache que é uma forma de se tentar distanciar do estilo direita-carrascão (Alberto João, Portas, etc) e assim angariar votos entre o pessoal oscilante PSD-PS.
Seja como for, nós temos cá para nós que aquilo é falta de vitaminas e que ele devia era passar cá pela padaria. A Rosarinho já se ofereceu para lhe fazer uns brioches. Eu era mais uns cacetes. De qualquer maneira o homem está a precisar dum pequeno-almoço fortificante. É o que eu acho.

1/21/2008

LIÇÃO DE FONÉTICA. APROVEITEM QUE EU NÃO DURO SEMPRE

Toda a gente tem sotaque. Toda, sem excepção. Mas há sotaques que são mais massacrados do que outros. São aqueles que se usam para contar anedotas no café, para encenar rábulas nos programas de humor e para imitar alguém de quem não se gosta ou se considera simplesmente "um cromo". É lixado. Mas isto é assim por uma razão muito simples: Há sotaques que, quando os ouvimos, caem em cima de nós como uma chuva de pedregulhos por uma ribanceira abaixo, e quem os tem entranhados, ou encara aquilo como uma religião ou vai passar os dias no psiquiatra porque não tem cura. É o caso do sotaque morcão, o beirão interior e o alentejano entre outros. Não há nada a fazer.

Mas o que dá vantagem a uns e desvantagem a outros nesta competição linguística é mesmo isto: um gajo de Lisboa, desde que possua um mínimo de elasticidade fonética, consegue imitar um gajo do Porto. O contrário é impossível. E é-o de tal maneira que, dada a subtileza do sotaque da capital, os mais duros de ouvido são capazes de jurar que, simplesmente, eles não têm sotaque. Mas têm. Vejamos alguns exemplos:


Dizem "t'fone" em vez de "telefone".


Dizem "s'pé" quando querem dizer "muito". Por exemplo, "s'pé giro" significa "muito giro", "s'pé caro" significa "muito caro", "s'pé chato" significa "f*dido" e por aí adiante.


Dizem "bêbê" em vez de "bebé".


Dão um soprozinho no "d" e no "t".


E passam a vida a dizer "então vááá!", que significa "Tá bem c*ralho!"




Eu por acaso tenho sorte. Troco os bês pelos bês à força toda mas quando quero consigo imitar qualquer um, na boa. Só preciso de treinar mais o açoreano e o lelo. O lelo é mesmo muito difícil. Mas lá chegaremos.