Com o processo de consultoria quase a terminar, fui chamada pelo consultor que, mais uma vez com o ar mais consternado do mundo, me mostrou os números do projecto e me explicou que a minha empresa não era viável. Ia ter prejuízos brutais e, como tal, era preciso revê-lo em pouquíssimo tempo. Propôs-me que retirasse despesas e aumentasse o capital a investir. Ou seja, uma operação de cosmética.
Na altura eu recusei e disse que, sendo assim, era preferível o projecto ser chumbado do que levar marteladas para compor os resultados pois não estava disposta a abrir uma empresa inviável. Logo no dia seguinte, estava a ser informada que nesse caso seria considerada a minha desistência e como tal teria que pagar à empresa as horas de consultoria, num total de dez mil e tal euros, ou seja, mais de oitenta euros/hora. Tinha que remodelar o projecto e mais nada.
Fui para casa pensar no assunto e retirei imensas despesas, umas mais ou menos supérfluas como publicidade mas outras indispensáveis como uma viatura e pessoal. No entanto, naquela altura do campeonato já não me sentia nada confiante naquele projecto e decici não aumentar o capital a investir. Pelo contrário, diminuí-o. Até porque todos os números que estavam naquele plano eram tão sólidos como manteiga. Os clientes tinha-os decidido eu sozinha, sem qualquer apreciação crítica por parte do consultor, como se fosse possível aparecerem do nada tantos clientes como eu quisesse. Se queriam uma empresa para dar prejuízo, que a abrissem eles.
Apresentei a versão final do projecto e fiz saber que dali não arredava pé. Fizessem o que quisessem, chumbassem-me o plano, paciência. Avançar só avançava com segurança.
A partir daí foi um inferno, com uma pressão constante em cima de mim da parte de toda a gente. Diziam-me que um projecto inviável era culpa minha e era considerado desistência, que tinha que indemnizar a empresa de consultoria por isso, ameaçaram-me com tribunal, estalou o verniz todo, foi uma pouca-vergonha inqualificável. O que se passava na verdade é que, no caso de um plano ser inviável, nem o candidato recebia o incentivo de 5000 euros para a empresa, nem a consultoria recebia o pagamento de elaboração do dito, muito superior ao que recebia o candidato para abrir o negócio por surreal que isso pareça. E isso eles não queriam aceitar nem por nada.
Nesta altura tive, felizmente, o apoio do meu marido, mais habituado do que eu ao mundo dos negócios e como tal menos totó. Foi comigo a uma reunião final onde me ajudou a pôr o gajedo todo com dono.
Pararam de me chatear até hoje pelo menos. Contratei uma advogada que ficou pronta para me defender quando viesse o tal processo em tribunal mas até hoje não foi necessário.
Mais tarde, vim a descobrir que entre a instituição que coordenava todo o projecto e a empresa de consultoria escolhida havia amizades e até casamentos. Era uma panelinha de gente que andava ali para sacar algum e que o sacava desse para onde desse. Descobri que inclusive havia formadores a quem eles pediam que assinassem formações inexistentes para receberem dinheiros dos fundos comunitários.
Das minhas colegas que abriram efectivamente a empresa, todas receberam a miséria do incentivo tarde e a más horas quando já tinham os fornecedores todos à perna e pelo menos a uma a vida correu muito mal pois a empresa também não era a mais viável do mundo. No fundo, as pessoas eram pressionadas a martelar os planos por onde fosse necessário até eles serem aprovados e toda a gente receber. Se no futuro as empresas eram viáveis ou não... que se lixasse.
Só contei esta história para dar uma pequena amostra de como são utilizados neste país os fundos comunitários para incentivar a abertura de empresas e melhorar a economia. Ou seja, não vamos lá. Não vamos mesmo. Está-nos no sangue.
Obrigada pela pachorra.