1/17/2006

HOJE APETECEU-ME INVENTAR UMA HISTÓRIA



Esta é a história duma mulher que tinha um marido corno. Vamos chamar-lhe Madalena. Fica-lhe bem este nome sofredor e bíblico.

Tudo começou um dia depois de ter casado, quando o marido lhe perguntou de onde conhecia um homem que cumprimentou na rua. Claro que esta pode ser uma pergunta inocente, mas não no caso em que é feita com o ar ríspido que caracteriza o corno profundo. Nesse dia, a Madalena teve o primeiro calafrio mas, na presença de uma só manifestação da doença preferiu ignorar e considerar que se tinha tratado de um caso isolado.
E assim, Madalena continuou por mais um dia sonhando com o casamento apaixonado e monogâmico que tinha aprendido com a mãe, as tias e demais mulheres da família, bem como nos romances e revistas femininas que lia desde pequenina, umas vezes às claras outras vezes não.
No dia seguinte, no entanto, o marido de Madalena teve uma recaída fortíssima. Sem a olhar nos olhos (o corno nunca olha directamente a sua vítima), enquanto remexia papéis na carteira como pretexto para fingir que se tratava de uma conversa de circunstância, disse-lhe:
-Tens sido toda a vida uma puta, mas podes ter a certeza que comigo isso vai ter um ponto final.
A princípio, Madalena pensava tratar-se de uma charada pateta pois não tinha qualquer recordação de ter executado tarefas sexuais a troco de dinheiro ou outros bens materiais em toda a sua vida, mas logo se começou a avolumar na sua mente uma terrível certeza: O marido era corno!
E como tinha razão... As provas foram-se acumulando dia após dia como gotas. Uma dia fazia uma cena de ciúmes violenta por a ter apanhado a conversar divertida com um dos irmãos, no outro interrogava-a sobre onde e como lhe tinha tocado o clínico geral e o que tinha ela sentido nesse toque, mais tarde proibia-a de frequentar cafés sem a sua companhia e finalmente decidiu escolher pessoalmente toda a roupa dela para que nada expusesse que pudesse provocar a cobiça alheia. Afinal, estava provado. O marido da Madalena era corno!
Mas apesar desta certeza, Madalena recusou-se a aceitar desde logo a realidade. A princípio pensou que tudo aquilo podia ser uma crise passageira e começou por aceder em tudo para que ele acalmasse e se desenvolvesse um clima de confiança que permitisse apagar todos os sintomas. Estava errada! A cada dia que passava, o corno que vivia dentro do marido de Madalena manifestava-se mais e mais e, vendo-se contrariado explodia em ataques sucessivos de raiva. Ela, por seu lado, sentia-se cada vez mais infeliz e não teve outro remédio senão aceitar a dura verdade: O marido era corno e ela tinha que lhe fazer a vontade.

A princípio a medo, Madalena partiu então para a sua derradeira missão: Fazer do marido, materialmente, aquilo que ele sempre fora em espírito.
Não lhe foi fácil. Por isso, a primeira vez que Madalena traiu o marido foi com uma amiga. Para início, precisava da maciez e do conforto que só uma amiga com quem já se trocou todas as confidências possíveis proporciona. Os homens, eternos adversários, ficariam para mais tarde.
Na segunda vez, com mais confiança e a sentir que tinha pé até mais à frente, Madalena combinou uma reunião de trabalho a cerca de 250 km de casa, com um cavalheiro que já tinha feito quarenta anos de idade no dia em que ela nasceu. Nesse dia, pela primeira vez e no clima perfeito daquilo a que por vezes se chama erradamente “degradação moral”, sentiu que estava a corresponder verdadeiramente aos parâmetros que permitiriam ao marido seguir, em todo o seu esplendor, a sua vocação de corno.
Madalena tinha que se esmerar, pois os requisitos de um corno, na sua essência, exigem todo um trabalho que envolve muitas e complexas variantes. Não basta trair. É preciso que o traído desconfie sempre e sinta no ar que há traição, mas nunca consiga direccionar a sua desconfiança para o alvo certo. É preciso que o acto da traição seja acompanhado de todo um manancial de sedução e prazer genuíno. É preciso arriscar muito, marcar encontros pelo telefone mesmo com o traído sentado ao lado a ver televisão ou a jantar, aliás, o coadjuvante tem sempre que saber que está com uma mulher casada. Caso contrário, o corno nunca se sentirá plenamente realizado.

E assim se passaram alguns anos de felicidade conjugal.
Até que um dia, a Madalena, no fundo ainda uma ingénua no que toca às técnicas de traição, deu por si a pensar a toda a hora no mais recente dos seus casos. Quando estava a trabalhar, quando estava a tomar banho, a pentear-se, a cozinhar, a limpar o pó ou mesmo a tentar ler um livro, só pensava naquela pessoa, e estranhou que tal coisa lhe estivesse a acontecer pois não era isso o planeado. Pior ainda, descobriu que quem lhe ocupava daquela maneira os pensamentos, se encontrava no mesmo estado. E começou a fazer asneiras, a cometer erros básicos, que a levavam a arriscar para além do razoável para estar com aquela pessoa. Pior ainda, quando estavam juntos chegavam a passar horas a... conversar. A situação estava negra, muito negra...

E foi assim que a Madalena resolveu mandar à merda o marido corno que tanto trabalho lhe dava e arranjou um normal.
Agora, vive como nos romances e nas revistas que lia quando era canuca.

Estas histórias podem ter finais muito diversos.
Eu escolhi este.

Acham que tenho futuro nas fotonovelas?

4 comentários:

robina disse...

Olá se tens. O Zé Eduardo que te veja que vais ver :-)))))

Olá, Didinhas :-)

Azit disse...

Falta aí um assassinatosito pelo meio, um drama pessoal/social, tipo a Madalena ter de ir todos os dias a casa da sua avó acamada para trocar o saco das necessidades e limpar as chagas provocadas pelo estado vegetativo; e pronto, podes começar a preparar o guião...

MRF disse...

eu não chegava ao limite do azit, mas para a novela ser vendida como coisa de interesse socio-pedagógico, ela devia apanhar umas tareias, devia finalmente ter ganho coragem para confessar a violência doméstica, e o amigo por quem se apaixonava era um psicológo abusado em pequenino pela madrasta. mas de certeza que pensaste nisso tudo e optaste por algo mais soft, a ver se consegues encaixar a história no horário nobre, porque afinal uma pessoa tem de ganhar algum dinheiro para se poder dedicar a 100% à sua vocação.

jp disse...

Eu apanhei umas tareias e ainda não vendi nenhuma novela. Faltar-me-á o psicologo amigo?