11/23/2011

A minha primeira vez

Nunca entendi o fado nem consigo entender. Nunca entendi aquela urgência de sofrer nem o prazer perverso de fazer chorar a alma sem motivo aparente. Deve ser defeito meu. Intrínseco ou geográfico. Nasci no local errado para entender o fado., é o meu fado.
Lembro-me da primeira vez que assisti a um espectáculo de fado ao vivo, como me lembro da primeira vez que vi uma tourada. Não contando com os fados que a minha avó cantarolava pela casa que esses não eram fados que me batessem nas entranhas, era a minha avó a cantar simplesmente. De ambos fiquei com a convicção que bastava, embora com um sentimento diferente. O fado era só depressão, a tourada era repulsa.
A primeira vez que ouvi cantar fado sem ser na televisão a preto e branco e só com um canal foi na festa de S. Sebastião, que a comissão de festas montava mesmo nas traseiras do prédio onde morávamos e onde hoje só há mais prédios todos parecidos. Nós tínhamos direito a lugar de camarote da janela de casa. Naquele ano foi contratado um fadista pintoso e sem nome. E lá esteve ele por uma noite, no palco improvisado, magro como um cadáver, de cabelo oleoso e bigode, fato coçado onde o bedum já brilhava com o reflexo das luzes, no meio de dois guitarristas que pareciam chorões no outono, a cantar vezes sem conta a mesma composição musical com letras diferentes: Uma era sobre o soldadinho que foi para a guerra, depois a criadinha desonrada, mais tarde a família assassinada por um criminoso sem coração e por fim a galinha com o ovo encravado na cloaca, tudo a rimar a preceito.
E as luzes da festa de todas as cores, sempre a piscar, numa cena quase patética. Nós ríamos na varanda porque as crianças conseguem rir sempre.
E cá em baixo os bêbedos, alheios, consumiam vinho da pipa.

6 comentários:

Vítor Fernandes disse...

Gostos não se discutem e por isso não posso comentar do tipo: Que pena! Olha se gostasses um dia destes convidava-te (e ao Zezito, claro) para ires comigo aos fados. Assim não é pena nenhuma. Vou eu a mais a minha Maria, pronto. É que eu sou um perdido por fado. E não estou a brincar. Beijinhos.

Didas disse...

O Zezito também é. E eu já fui com ele duas vezes. E não me importo nada, até porque aquilo costuma vir acompanhado de morfes e tinto! Agora gostar gostar...

Mirian Martin disse...

Sempre achei (porque nunca fiz pesquisa a respeito) que o fado tivesse suas raizes no período das grandes navegações, quando as mulheres ficavam e esperavam que seus homens voltassem, por isso o tom choroso e, normalmente, as letras também. Só que as grandes navegações acabaram e o fado ficou. :) Até mesmo no Brasil tem quem goste e nem é portugues!Quanto a mim, gosto "assim, assim". :)

Didas disse...

Confesso a minha ignorância, não faço a mínima. Mas penso que a origem do fado não é consensual. Eu pessoalmente acho que foi alguém constipado a gemer num dia muito húmido.

Anónimo disse...

pois é! A primeira vez é sempre complicada !!!!!!!

Didas disse...

Nem sempre.