7/26/2006

AMARGO


Sei que estava deitada, imóvel e de olhos fechados. No entanto, não dormia, pois podia ouvir distintamente tudo o que se passava à minha volta: As vozes das pessoas, o barulho dos objectos, uma música ao longe que não reconheci.
Apesar de não estar a dormir, lembro-me que pensei - "Já é dia. Vou acordar e levantar-me." - e tentei mexer o meu braço direito por forma a dar-me o impulso necessário para sair da posição horizontal. Para minha surpresa, não consegui. Tentei então mexer o braço esquerdo, que também permaneceu imóvel. Depois uma perna e outra. Todos os esforços foram em vão, não conseguia abrir os olhos, nem mover qualquer dos membros, nem virar a cabeça. Pensei que alguma coisa estranha deveria estar a passar-se, - "Talvez esteja a sonhar" - pensei - "É isso, estou a sonhar, que sonho bizarro!" - e resolvi esperar mais um pouco.
Entretanto, concentrei a minha atenção nos sons do quarto e percebi distintamente que as vozes à minha volta eram sussurradas umas, e outras em fundo apenas um choro contínuo. As pessoas moviam-se de um lado para o outro como que atarefadas com qualquer coisa e eu continuava ali, sem me conseguir mover como se cada parte do meu corpo pesasse mais que uma montanha. Quis avisar, mas os meus lábios não se abriram nem um milímetro e deles não saiu qualquer som. Continuei a ouvir o choro, cada vez mais distinto.
De repente, do nada, uma ideia tornou-se claríssima na minha cabeça: Estava morta.
Senti-me profundamente contrariada. Nem triste, nem desesperada, nem em pranto. Apenas muito contrariada. Como diabo fui eu morrer assim sem dar por ela?
No segundo seguinte estava já na escuridão. Sabia que estava enterrada e uma angústia terrível apoderou-se de mim toda. E agora? Vou ficar aqui eternamente, sem nada para fazer e sem me poder mexer! Estou sozinha.

Sonhei mesmo isto um dia destes, quando adormeci durante a tarde a ver um filme de chacha na televisão e continuo com um sabor amargo até hoje.
Não é estúpido?

10 comentários:

joaninha disse...

Estúpido, não. Mas é um bocadito assustador...

Anónimo disse...

Angústia, a poderosa...
Fique tranquila, quando morrer "desliga" por inteiro. Não assiste.

SaltaPocinhas disse...

é por essas e por outras que só vejo filmes bons, daquelea americanos com muitos tiros e efeitos especiais. Nem é preciso estar com atenção. os que caem ao chão são os maus, os que sobrevivem são os bons...
Tu vês muitos filmes franceses, é o que é! Depois fazem-te pesadelos!

Didas disse...

É não é Joaninha? Só tu é que me compreendes m'lhéri!!!

Já estou mais tranquila anónimo, obrigada! :)

Porra Saltapocinhas! Era mesmo um desses que eu estava a ver! Lol!

José Manuel Dias disse...

Fogo!!
Já me vou embora....
Cumps

calózita disse...

xiça, penico! que pesadelo!

Anónimo disse...

Touché, José Manuel Dias! Lol!

Penico é pouco Calozita! Um WC inteiro! :)

Didas disse...

Então esta gaita pôs-me anónima???

AVC disse...

Há quem pense que durante o sonho o espírito do sonhador se liberta momentaneamente do corpo físico, viajando para outros lugares à velocidade do pensamento. Daí a sensação de desorientação que tantas vezes se sente ao acordar. Pensa-se mesmo que existem conversas com outros seres desencarnados, trocas de experiências, etc. Há também quem pense que é durante o nosso sono que nos são “soprados” ao ouvido conselhos para resolvermos os nossos problemas. Quantas vezes ao “dormirmos sobre” algum, misteriosamente, acordamos com a sua solução? Ora aí está! Também poderão existir más influências. Noutros planos as “más” pessoas continuam a sê-lo, exactamente como eram aqui na Terra, tantas vezes por dificuldades de aceitação face à sua nova realidade existencial. Poderão provocar sugestões negativas, por exemplo, a quem dorme (é a melhor forma de influenciar os encarnados) e por motivos variados, retirando quase sempre prazer desse tipo de situações. Continuarão a fazê-lo até perceberem que estão errados. Acham os crentes que os espíritos são bons, maus, e nem uma coisa nem outra, apenas “pequenos diabretes”. Por vezes os sonhos surgem para nos alertar para determinadas situações, para nos fazerem pensar em mudanças de ponto de vista. A morte é apenas uma palavra. Não há morte mas apenas mudança de estados existenciais. Não nos é, para já, permitido tudo perceber, mas há razões para o sofrimento, para as injustiças, para tudo. Nada do que se passa nesta Terra existe sem uma razão. Dizem os entendidos que devemos alargar horizontes a novas abordagens. Aconselho-te vivamente a isso.

Cumprimentos

Didas disse...

Bem, espero que não fossem espíritos a aconselhar-me a... "despachar-me"...